"[...] expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade que chovia - peneirava - uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, [...]" (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, 2010)

sexta-feira, 19 de março de 2010

Encontro Marcado


Amanhã, depois das dez, tenho um encontro comigo mesmo. Dessa vez não vou esperar que todos durmam ou saiam. Eu, por iniciativa própria (mas com exagerada influência de livros e outros instrumentos libertadores), vou me dedicar a mim mesmo. Vou ler um livro com tema e autor(a) interessantes, ouvir uma música que adoro, asssistir ao filme que é lançamento ou rever, pela vigésima vez, aquele que tanto adoro; talvez, simplesmente, sentar e olhar o horizonte.

Desejo, com siceridade, que faça o mesmo. Exercite sua individualidade. Mulher, esposo, filhos, pais, irmãos, sogras, gatos e cachorros devem estar, nesse momento, em outro plano: o 2º. Não se preocupe se você vai apenas andar sozinho, falar sozinho ou rir sozinho. Ou se vai fazer coisas que acha mais banais ainda; contudo, que faça com e para você mesmo. E de preferência sozinho. Seus amigos e amigas? Filhos? Ora, você esteve com eles meia ora antes, esteve ontem o dia todo; trabalhou com eles por mais de 8 horas hoje; se divertiu a bessa com eles ontem à noite. Por isso, não se preocupe, eles deverão ser compreensíveis - ainda que rolem pelo chão de tanto rir depois te verem andando, falando e rindo sozinho, se for o caso.
Não se acovarde, envergonhe-se ou invente desculpas para fazer aquilo que tornará você, ainda mais, você mesmo. Isso pode parecer estranho, mas é que hoje somos cada vez mais os outros: família, amigos, trabalho, etc e tal. Se jantamos, devemos jantar juntos (da televisão). Se trabalhamos, tropeçamos em outros funcionários da repartição. Se estamos tomando uma, olha a turma de amigos pra rir conosco (e ajudar a pagar a conta, é claro).
Além do mais, você vai continuar acompanhado... por você mesmo! Daí, aproveite e apresente-se novamente a você mesmo, caso esteja a muito tempo sem te ver. Conte das coisas que desejou e não consegui, das coisas que não desejou, mas lhe levaram o último centavo do bolso. Fale das apreensões, expectativas de vida, no amor, no trabalho (siga essa ordem!). Conte a você mesmo que quer estreitar ainda mais sua relação com você mesmo. Determine metas e peça a você mesmo que o encoraje à conquista de cada uma delas. Chore, caso sinta vontade, mas não tenha vergonha de pedir um abraço a você mesmo.
Agora, levante-se. Porque seu melhor amigo, você mesmo, precisa se recolher e você deve voltar para vida de papéis, contas pra pagar, filhos com dever de casa e mulher, como sempre, atrasada.